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A Batalha de Maldon (tradução)

Elton O. S. Medeiros

Entre os relatos sobre o reinado de Æthelred II (978-1016) durante a segunda onda de invasores escandinavos que assolou a Inglaterra, talvez o mais famoso seja o confronto do exército inglês liderado por Byrhnoth, ealdorman de Essex, contra um grande exército viking. Apesar de certas discrepâncias na Crônica Anglo-Saxônica a respeito da data do acontecimento, acredita-se que este tenha ocorrido no ano de 991. Segundo a Crônica, os invasores teriam chegado à Inglaterra e saqueado a cidade de Ipswich e então direcionaram-se para Maldon na região de Essex. O relato deste confronto foi registrado na Crônica Anglo-Saxônica em forma poética, como uma homenagem àqueles que pereceram em combate, exaltando sua coragem e determinação frente à derrota.

O poema A Batalha de Maldon, assim chamado desde o século XIX, sobreviveu em 325 versos em inglês-antigo, mas com seu início e final fragmentado. A história de seu manuscrito anterior ao século XVII é obscura, pois foi só por volta de 1621 que ele teria sido identificado e catalogado como parte de uma coleção de manuscritos pertencente a coleção de Sir Robert Cotton (1571-1631), sob o nome Othon A.XII. Infelizmente, o manuscrito foi completamente destruído no incêndio da coleção em 1731. Contudo, poucos anos antes, David Casley – responsável na época pela coleção – havia feito uma transcrição do texto, da qual todas as edições e traduções modernas são baseadas.

O poema começa com Byrhnoth reunindo seus homens junto ao rio das cercanias de Maldon e os vikings os aguardando na margem oposta. Os escandinavos enviam um mensageiro que exige que os anglo-saxões lhes paguem tributo (danegeld) para evitar o combate e para eles (os vikings) irem embora, mas os ingleses desdenham e zombam do mensageiro, prometendo-lhe pagar com golpes de lanças e espadas. Com a subida da maré, fica claro que os vikings só podem atacar através de uma estreita faixa de terra que os ingleses conseguem defender facilmente. Entretanto, Byrhtnoth comete um grande erro tático. Para confrontar seu inimigo, ele permite que os vikings atravessem o rio para poder enfrenta-los em terra seca. O poeta utiliza-se de termos como “conceder muito terreno” e palavras como ofermod (literalmente “orgulho”) ao se referir à atitude do ealdorman, claramente como uma crítica, o que acaba sendo suplantado com as ações decorrentes do confronto, pelas atitudes de Byrhtnoth e seus homens.

No restante do texto há a descrição da batalha, alternando cenas de encontros individuais e cenas gerais de confusão e morte. É então que o poema demonstra sua importância ao retratar cenas e exemplos de extrema lealdade – elemento que não apenas permeia o texto como é seu tema principal – em contraste com cenas de deslealdade e covardia. Neste momento da narrativa encontraremos duas passagens famosas do poema e da poesia anglo-saxônica: o discurso de Byrhtnoth para elevar a moral de seus homens (versos 312 – 313) e a postura de seus principais guerreiros que, após a morte de seu líder frente aos invasores e apesar da derrota ser certa, decidem permanecer no campo de batalha para honrar seus votos de lealdade e vingar a morte de Byrhtnoth, o que pode nos fazer lembrar em muito, por exemplo, o relato de Heródoto sobre o rei Leônidas e seus homens na batalha das Termópilas devido à similaridade temática de coragem e lealdade.

A atual tradução de A Batalha de Maldon foi feita a partir do texto original em inglês antigo da edição de George Phillip Krapp e Elliot van Kirk Dobbie, The Anglo-Saxon Poetic Records vol. VI (1942), e que acompanha a minha tradução para o português. Esta, por sua vez, diferente do original, foi realizada em prosa. Isto devido ao fato de ser uma forma mais fácil de trabalhar – em função das particularidades do verso em inglês-antigo, das aliterações e demais elementos da escrita poética – e também por facilitar a leitura daquele que toma seu primeiro contato com o texto. Ainda assim foi mantida uma tradução que se mantivesse o mais próximo possível do original, de seu contexto e significado.

Clique aqui para ler a tradução em Brathair vol. 12 nº 1 2012