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O poema Heliand (“Salvador”) foi escrito em saxão-antigo em meados do século 9 e possui aproximadamente 6000 versos. Ele reconstrói a história da vida de Cristo, assim como descrita nos quatro evangelhos, dentro de uma única narrativa e seguindo o estilo e o cenário do mundo germânico da época. Por exemplo, Jesus ao nascer estaria cercado por guerreiros e seus cavalos, não pastores; no lugar do deserto, como cenário ermo teremos a floresta; locais como Galiléia e Belém são chamados como “Galeeland” e “Bethlemsburg”; Jesus reúne ao seu redor doze guerreiros que o ajudam e lutam ao seu lado (ao estilo do comitatus) e possui o conhecimento mágico das runas para realizar seus milagres (como quando transforma água em vinho nas bodas de Caná; em João 2: 1-11), entre outras coisas.

Sua autoria e seu objetivo também são desconhecidos. Uma hipótese é de que talvez ele tenha servido como forma de auxiliar na cristianização dos saxões. O poema pode ou não ter sua inspiração devido a influência dos missionários anglo-saxões no continente[1], mas é fato que a obra era conhecida na Inglaterra do século 10. A melhor das duas cópias do manuscrito de Heliand que existem (a outra seria a cópia de Munique) foi feita em Winchester na segunda metade do século 10 [2].

Um dos trechos mais interessantes do texto está no canto 19 do poema, quando Cristo realiza a oração do “Pai Nosso” e onde pode-se notar as diferenças entre a oração original e sua versão saxônica:

Fadar ûsa | firiho barno,

thu bist an them hôhon | himila rîkea,
geuuîhid sî thîn namo | uuordo gehuuilico.
Cuma thîn | craftag rîki.
Uuerða thîn uuilleo | oƀar thesa uuerold alla,

sô sama an erðo, | sô thar uppa ist
an them hôhon | himilo rîkea.
Gef ûs dago gehuuilikes râd, | drohtin the gôdo,
thîna hêlaga helpa, | endi alât ûs, heƀenes uuard,
managoro mênsculdio, | al sô uue ôðrum mannum dôan.

Ne lât ûs farlêdean | lêða uuihti
sô forð an iro uuilleon, | sô uui uuirðige sind,
ac help ûs uuiðar allun | uƀilon dâdiun.

[Pai nosso, filhos dos homens, Tu está no alto reino celeste, Santo seja Teu nome em cada palavra. Possa Teu poderoso reino vir. Possa Tua vontade ser feita sobre todo este mundo, assim na terra como é lá nas alturas do alto reino celeste. Nos dê apoio[3] a cada dia, bom Lorde, Teu sagrado auxílio, e nos perdoe, Guardião do Céu, nossos muitos crimes, assim como nós fazemos a outros seres. Não permita que pequenas criaturas malignas nos desviem para fazer suas vontades, como nós merecemos, mas nos ajude contra todos os atos malignos.] (Heliand, vv. 1600-1612)[4].


[1] WORMALD, Patrick. “Anglo Saxon Society and its Literature” in: GODDEN, Malcolm & LAPIDGE, Michael. The Cambridge companion to Old English Literature, Cambridge: Cambridge University Press, 1994, pp. 8-9; BOSTOCK, J. Knight. A Handbook on Old High German Literature, Oxford: Clarendon Press, 1976, pp.177-83.

[2] MURPHY, G. Ronald. The Saxon Savior, Oxford: Oxford University Press, 1995, pp.26-27.

[3] Do saxão antigo: rad (suporte, apoio, auxílio). O versão original “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Mateus 6: 11; Lucas 11: 3) poderia ser estranho para uma aristocracia guerreira saxônica. Por outro lado, eles reverenciariam sem problemas uma figura com um líder guerreiro, seu comandante e senhor, por seu suporte em tempos de guerra e perigo. Esta seria sua principal responsabilidade para com eles em troca de sua lealdade em combate para com ele. Deus, como “Líder de Todos os Homens” é concebido justamente dessa forma proto-feudal de relacionamento: Nós prestamos nossa lealdade a Ele, e em troca Ele nos protege das ameaças do mal. Este quadro se encaixa exatamente no mesmo tipo de imagem encontrada na poesia anglo-saxônica.

[4] Tradução do saxão antigo para o português por Elton O. S. Medeiros.

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